quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Perdas e Ganhos

a arte da vida é aprender a perder e ganhar. só que ao contrário. você ganha uma mãe. e um pai. num sopro ganha a vida. sabe, qdo me arrancaram nem perguntaram se eu queria. ganhei uma vida, mas perdi meu lugar. ganha um caderno em branco para desenhar sua história. mas perde a borracha. ganha leite, carinho e proteção. ganha bem-querer. e ganha querer. se achar que não tá bom, ganha noites pra chorar. e fraldas pra sujar. (ganhará fraldas novas um dia, mas eu não sou o tipo que conta o final dos filmes). ganha som. ganha luz. ganha todas as cores do mundo. ganha um montão de coisas para aprender. ganha festa estranha com bolo e vela. (ganhará velas novas um dia, mas eu não sou o tipo que conta o que você já sabe). ganha roupa. (aaahhh não!) ganha brinquedo. (ooowww yes!) ganha bicicleta. (mas demora). ganha a rua. ganha o campinho pra jogar bola. ganha machucado. ganha emoção. ganha mamona pra ganhar guerra, mas só quando consegue escapar dos olhos da mãe. ganha vento para empinar pipa lá no altão do céu, que você nem se lembrava que ganhou também. os poetas chamam isso de liberdade. ganha estrela. e ganha a imensidão do infinito. ganha escola. e perde a paz. ganha tabuada. ganha ditado. e viva, ganha as capitanias hereditárias. e já tá na hora de você ganhar dicionário, aquele cemitério de palavras que perderam o sentido com o passar dos ventos. (em alguns momentos da vida você perderá as palavras, mas eu não sou o tipo que se deixa levar). ganha a consciência de que o mundo é maior que seus sonhos. ganha primeiro amor e eu tenho a impressão que só alguém que perdeu o juízo que chama de tia aquela professorinha ajeitada. e quer saber? ela nem era tão ajeitada assim. (eu sou o tipo que rouba lembranças). ganha corpo. ganha voz. ganha gosto. e desgosto. ganha melhor amigo. e é bom guardar porque um dia você vai precisar. ganha o segundo amor, mas ela é do 1o colegial então, véi, é melhor não perder a noção. e só melhor amigo prá te falar isso. descobri que o dicionário chama isso de realidade. e ganha a melhor coisa do mundo que é o poder de poder perder tempo. uma dia ele te faltará. (mas eu não sou o tipo...) ganha vestibular e uma carreira para se orgulhar. e perde outras tantas que valeria à pena experimentar. tão pouca a vida para tanto que se tem prá ganhar. e ganhando vai. ganha salário. ganha namorada. e eu acho que é nessa ordem mesmo. ganha tanta coisa que você até acha que é feliz. ganha carro. ganha casa. ganha filho. ganha cachorro. ganha a segunda melhor coisa do mundo que eu acho que é churrasco. que o dicionário chama de família. e ganha a rotina (ou é a rotina que ganha de você?) prá te lembrar que algo se perdeu. e aí me parece que alguém lá em cima acha que você já ganhou demais. perde horas no trabalho que você ganhou para ganhar a vida. perde a calma. perde a alma. ah, a alma. "a alma é aquela coisa que pergunta se a alma existe". perde o sono. perde a paciência. perde campeonato. perde férias. perde a inocência. perde o respeito que nunca teve. e perde lágrima quando descobre que não tem mais tempo a perder. perde pai. perde mãe. perde irmão. perde amigo. perde esposa, perde marido. perde amor, perde sossego, perde paixão. só ganha silêncio e solidão. perde a alegria. perde a razão. perde o controle das coisas. as pernas cansadas já não suportam o velho corpo. os olhos perdem o brilho, as letras se perdem pelo caminho. perde a vida. ganha a eternidade. não tem jeito, meu caro: uma hora você perde do tempo. e eu bem sei que essas coisas tristes me botam comovido, mas o que me importa é não estar vencido. se o caminho da vida é a morte, a minha sorte é o vinho. sozinho. é saber que até no último momento eu ainda vou brincar que sou aquele velho menino... que adorava ver o tempo passar. meu jeito de perguntar pro tempo quem é mesmo o dono de quem? faça de mim o que quiser, eu não vou me importar com você. lá dentro do meu pensamento eu sempre vou poder voar: presente, passado ou futuro. sou poeta de mim mesmo, passarinho sem gaiola, sem mais nada prá perder. além do horizonte existe um lugar, bonito e tranquilo prá gente... vamo lá? ainda dá tempo.

terça-feira, 27 de março de 2012

tocarraul

para os raulseixistas de plantão. o documentário "O início, o fim e o meio" é parada obrigatória.

faz uns 50 anos que eu tento terminar um texto sobre o cara. sobre as ideias do cara.
mas sempre aparece algo novo. ou algo que eu passo a querer compreender de forma diferente.
já disseram por aí que um bom texto não é aquele que a gente lê. um bom texto é aquele que lê a gente.

raul é o nosso nietzsche.
e isso dá um trabalho danado de explicar.

"O caminho do risco é o sucesso
O do acaso é a sorte
O da dor é o amigo [e como anda difícil encontrar um amigo por aí]
O caminho da vida é a morte!"

"Trancado dentro de mim mesmo
Eu sou um canceriano sem lar"
quantos cancerianos temos por aqui? acho que vocês, como eu, entendem perfeitamente o que é ser um canceriano sem lar.

"Dois problemas se misturam
A verdade do Universo e A prestação que vai vencer
Entro com a garrafa
De bebida enrustida
Porque minha mulher
Não pode ver"

qual porrada do raul foi a mais marcante para você e por quê?
porque raul é assim. entra como tequila. e depois dos tais 50 anos passa a ser absorvido como vinho. é tudo como ele sempre disse. só que diferente.

me lembro quando por acaso caí numa gravação de "Meu amigo Pedro"
"Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou"

hj eu só queria alguém para recordar.
um banco na praça. pegar uma fila no xerox. roubar um chocolate no bandejão.
jogar caixote. imitar uma foca. levar a laranja pra passear. fazer serenata. ou não fazer absolutamente nada.
será que a gente não percebe que tudo isso se acaba?! escorre por entre os dedos como uma poesia que caducou.
você acorda um dia e já não é mais você. memórias, valores, segredos.
e isso não é necessariamente ruim, ou péssimo... é apenas vida.
algo digno de um amigo para recordar.

30 segundos de lucidez. de vez enquanto é bom.
e pra quem ainda acha que sou triste:
"eu sou o amargo da língua,
a mãe, o pai e o avô;
o filho que ainda não veio;
o início, o fim ..."

somos passado e futuro.
nunca presentes.
e isso vc interprete como preferir... pq quando "acabar o maluco sou eu".

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O homem que nunca morreu

Senhor, há um erro aqui!
Onde?
Aqui. Olha só... data de nascimento... 1791! Os números estão invertidos. rs
(Nota do Editor: não há um erro aqui. há milhões de erros aqui)
Não. Está correto.
Como assim?
Isso mesmo. Nasci em 1791.
silêncio. (como seria o som do silêncio? como podemos representar o silêncio? uma praia deserta? não. ainda haveria o barulho do mar. o pico de uma montanha? humm não. ainda haveria o barulho do vento. o homem sonha monumentos, mas só ruínas semeia - para a pousada dos ventos. mas isso é uma outra história. não entra aqui. nesses tempos, o silêncio é o avesso do carnaval. pronto. fica decretado que o silêncio é um carnaval, mas ao contrário) (o excesso de gente me impede de ver as pessoas)
Como o senhor nasceu em 1791 e continua vivo? (com uma certa ironia na voz)
Porque eu sou o homem que nunca morreu.
Não pode ser...
A morte se esqueceu de mim. Ou fui eu que me esqueci dela.
E como é ser o homem que nunca morreu? (ironia se transforma em curiosidade)
Bom, é ruim. Em termos. Eu sou o único da minha geração que não sabe o verdadeiro significado da vida.
Na minha geração também parece que ninguém sabe... (curiosidade se transforma em resignação)
Ninguém jamais saberá (anjos, demônios ou poetas). Pelo menos até morrer, ninguém poderá sabê-lo.
E se ao morrer a gente descobrir que não tinha significado? risos (pq será que alguns riem diante da incerteza?)
Isso por si só já será um significado.

É.
pausa. (pq quem pensa, pensa melhor parado)
O senhor preferia ter morrido?
Eu nunca vou morrer.
Como sabe?
Porque eu sou o homem que nunca morreu pq aprendeu como não se morre.

(pensa na cena)

Você não morre se se permitir morrer todo dia um pouquinho. Mas com a condição de ressuscitar devagarzinho pela manhã.
A morte é o dormir.
O céu é o sonho.
O inferno é o pesadelo. (ou versa vice)
E a vida é acordar.

E a insônia? (já impaciente)
A insônia sou eu. Eu que nunca morri. Mas isso está além da nossa compreensão entre o dormir e o acordar. [além do bem e do mal]
Você não morre se jogar fora as suas convicções... jogar fora seus pecados, seus desejos, seus amores, seus discos e livros e poesias. Seus dinheiros, suas vaidades e sentenças. Sua beleza. Seus dilemas, falsos ou verdadeiros. Seus luxos. Seus aminimigos.
Seu tempo. Sua vida.
A vida é repetição. Você não morre se aprender a trocar suas escolhas.
Você não morre se mudar de cidade, de estado, de país. Se mudar de idioma.
Se mudar de time (Nota do editor: essa frase está sob júdice e será retirada da versão final por estar em desacordo com a teoria do [Amor Fati])

(será que alguém lê até aqui?
Receita para Bolo de Banana
1 banana
1 kg de farinha
1 kg de açúcar em pó
pronto)

Acho sinceramente que te entendi.
Você só morre se... parar...
Esperava algo mais profundo? O [Super-Humano] é simples. Apenas aprendeu a dominar a [Vontade de Poder].
Tudo é percepção. E para perceber é preciso [Transvalorar os Valores]

Mas quem é você afinal?

Eu sou você. Você que nunca morreu.
Eu sou o mundo inteiro. Hoje.

(chega um tempo em que a vida é uma ordem. a vida apenas - sem mistificações)

Em tempo: 1971. junho. 26


assim falou r3. forma e conteúdo. se quiser entender a forma, me deixe um email. o conteúdo eu só sei explicar desse jeito.