Minha culpa. Minha máxima culpa.
São tempos difíceis para os sonhadores. Então eu devo admitir. É tudo culpa minha.
Não discuto com o destino. O que pintar eu assino.
Pode botar na minha conta. A crise. E essa galera que não sabe usar a crase. Minha absoluta culpa.
Minha culpa pela falta de água. E de sonhos. Pela carestia. Pelo preço da energia.
Libertem a Dilma. Eu sou culpado pelo nosso fracasso. Se tem povo que sobrevive a menos vinte, minha culpa não fazer desse rincão um país sério. É que eu estava ocupado demais curtindo sertanejo universitário.
E logo eu que me formei na USP. Nunca fiz nada pelos que me sustentaram. Não empreendi. Não gerei empregos. Não corri riscos. Não usei minha inteligência. Num mundo globalizado, nunca atingi o inglês fluente. Eu estava aqui distraído demais consumindo o Neruda. E achando que o Saramago me emociona mais.
Nessa década de crises não teve um ano sequer que eu não tenha viajado: México, Porto Rico, Argentina, Cuba (que horror meudeus!), Uruguai, Las Vegas e Miami (eu sei que você me entendeu). Fui correr maratonas na França (Paris, Nice-Cannes), na Holanda, na República Tcheca (minha culpa olhar para as moças belas). Fui parar na Alemanha, na Bélgica, na Dinamarca e até na Itália. Minha culpa gostar dos Brunelos e dos Barolos. Eu não sabia que a gente tava em crise. Devia ter lido aquela revista que você lê. Ou perdido meu tempo na frente da sua TV. Me desculpa por essa falha. Brasil, o país dos canalhas. Não dei aula de alfabetização para adultos. Nem me importei com a progressão continuada. Minha culpa se não me preocupei com a greve dos professores. Isso é lá com os governos. Preferi ir a maresias a enfrentar a urna eletrônica (by the way, já acabou a recontagem dos votos pelos tucanos?). Eu me declaro culpado, senhor juiz. Juiz dos pensamentos dos outros. Porque quem pensa, pensa melhor parado. Me desculpa por citar Raul, mas eu gosto. Eu sei que não devia. Na sua cartilha eu devia ser liberal. Social democrata. Mas eu só consegui ser eu mesmo.
Desculpa se não registrei minha empregada. Ou se dei alguma carteirada. Se andei pelo acostamento. É que minha vida é mais importante que a sua. Sempre foi. E sempre será. Desculpa pela dicotomia. Pelo maniqueísmo. Pela obsclidade como transcendência do nesterismo.
Eu sou culpado sim. Por culpar os patrões. E, sobretudo, os padrões. Por minha análise crua do bolsa família. E da bolsa de
Valores. Pelo lucro dos bancos. E dos bandos. Eu que não fiz nada pelo meu povo, de novo, venho aqui pedir Meu perdão. Logo eu que sei tudo.
Não combati a prostituição infantil. Nem o trabalho escravo. Fingi de morto quando me pediram esmola. Isso é lá com a presidente, não tenho nada com isso. Desculpa ter nascido. Desculpa ter usado o SUS. É que eu acredito. Sou aquele tipo maldito que diz coisas que a gente não gosta de ouvir. Se a porra toda tá errada a culpa é minha e de mais ninguém. Nos falta uma guerra, uma peste, uma febre para fazer nossa gente assumir sua responsabilidade. Mas é mais fácil ficar na janela, batendo panela, para inglês ver. A culpa não é do governo, mas do enredo desses 500 anos de submissão. Tirem aquela mulher de lá. Ela não sabe falar. Eu exijo, mas não sei bem aonde quero chegar.
Logo eu que nunca passei fome.
Me sinto assim tão culpado por tudo ter dado errado. Essa é a minha desilusão. Num mundo de certo e errado. De preto e de branco. De azul e de vermelho. Da branca de neve e do vilão sem dedo. Eu sei ser irônico quando me convém. Choram as rosas e não chora mais ninguém. O Haiti é aqui. E pq não haveria de ser? Eu que não vou nem em reunião de condomínio. Nada é comigo, nem vem que não tem.
Acorda. A corda tá no pescoço. Tá osso.
Agora deixe-me ir. Que eu descolei um VIP p aquela baladinha da moda. Daqui a pouco eu posto no face ou insta. Dá um like p fortalecer. Que aqui tem um filho de nordestino, bisneto de índio, q sabe bem seu destino. Opa, se eu sei.
A culpa é minha. Só minha. Eu já confessei. Oi tapa na cara? Não bebê.
"O importante não é o que fazem do homem. Mas o que ele faz do que fizeram dele".
sábado, 8 de agosto de 2015
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