terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Aquela criança que mora em mim

Acordei. 
Ainda meio atordoado pela noite passada. Meu wearable (que eu insisto em chamar de relógio...sorry, sou das antigas) detecta o fim do meu momento de desconexão c o mundo físico (q alguns chamam de dormir) e me informa as horas. É o tempo, andou mexendo com a gente sim. 

- Zhǔnbèi! (Pronto! P quem ainda não começou a aprender "Chinês"). 
A senha p uma série de sensores e atuadores serem acionados pelo meu assistente virtual. 
A água racionada p o meu banho é aquecida c o calor gerado no meu treino de 15k na esteira 2 dias atrás. A cafeteira se prepara p liberar meu café em 12 minutos. 

26/06/2021. Caraca, 50 anos. Algumas lembranças da noite passada. Os amigos. Nao sei pq Paulinho da Viola ainda canta na minha memória (Foi um rio que passou em minha vida). Vinil, uma das minhas excentricidades. Os vinhos compartilhados. Os cheiros. As sensações. Antes de sair da cama faço um download das minhas emoções. Meu cérebro é scaneado. E uma selfie mental é armazenada em alguma Cloud na Islândia. 
Banho e café tomados. A luz vermelha na porta indica q o último carro elétrico  disponível no condomínio foi utilizado. 

Terei q usar uma das bikes compartilhadas p ir ao trabalho. Mas não existe mais trabalho. Em 2018 me retirei da vida corporativa. O q faço hj é cuidar. Cuidar dos filhos da useless class. Q a tecnologia prometeu salvar. Mas o capital tinha outros planos. 
3 drones pairando no ar me indicam o caminho a não seguir. Quarteirão bloqueado por mais uma rebelião de refugiados digitais.  
Somos humanos ou máquinas? Francisco, el hombre. 
Em algumas escolas nao ha mais gentes. Nem professores rs. Os pais abastados enviam os avatares dos seus filhos p ambientes virtuais, onde a aprendizagem N x N virou o padrão. Aqui não. Crianças de 7 a 8 anos me aguardam p uma conversa sobre desintermediação usando blockchain e machine learning. Admirável mundo novo...

Nota do escritor: 
Nao sei se será assim ou quase isso. Nao sei se será passado ou breve futuro. Nao sei se veremos Blade Runners ou Soldados do Tráfico. Ambos indicarão q algo deu errado. 
Seja como for, comece a cuidar da sua lucidez. Desconecte-se vez ou outra. Quase sempre e todo dia. Repense seu conceito de felicidade humanista. Contemple mais, coma menos. Aprenda e ensine. Compartilhe. Respire. Viva a Arte! 

E não se desespere. Estamos perdidos, como sempre estivemos. Mas ainda haverá vida. Ainda haverá a criança. Nem q seja aquela q mora em mim. Só preciso encontrá-la. Essa é a minha única esperança. 

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