Eu não sei você, mas eu
praticamente não existo logo cedo. Até às 10 da manhã (ok, cada um tem um
conceito para “logo cedo”) tenho a nítida sensação de que apenas as minhas
funções vitais estão mais ou menos em operação.
Sim, eu sou um animal noturno. Fico
imaginando as vantagens e, especialmente, as desvantagens competitivas desse
meu modo de ser caso eu vivesse no tempo das cavernas.
E dessa imaginação surgiu a
pergunta: quais características permitiram que nós, os Homo Sapiens, conseguíssemos
sobreviver diante de animais mais fortes, mais sensitivos e mais velozes? (e na
maioria das vezes mais éticos também).
Recentemente, lendo o excelente “Homo
Deus” do Yuval Noah Harari, aprendi que o que nos permitiu chegar até aqui foi
a nossa capacidade de cooperação em grande escala. Ou seja, as ideias de cada
indivíduo, em contato com as ideias de outros indivíduos e misturadas em grande
escala, nos despertaram para um mundo novo repleto de aprendizados.
Como se esconder? Qual o melhor
horário para caçar? Como fazer armadilhas ou escapar delas? Como fazer com que
nossas crias tão mais frágeis sobrevivam?
Para haver a cooperação humana em
grande escala foi necessário elaborar uma crença muito especial. Nós
acreditamos em regras inventadas. O poder coletivo a serviço da sobrevivência
da espécie. Esse liquidificador caótico de ideias era completamente
descentralizado. O melhor ou o pior para a espécie era comprovado na prática. Ideias boas, próxima fase. Ideias ruins, game
over.
Por muitos anos temos acreditado
em entidades centralizadoras, responsáveis pela manutenção da ordem e do
bem-estar, cuja função principal tem sido regular as transações entre humanos. Acreditamos
nos bancos para transações financeiras, nos tribunais eleitorais para o pleno
exercício da Democracia, aceitamos cartórios, confiamos no aprendizado 1 para N,
confiamos em órgãos governamentais. Dependemos de países e leis e julgadores. E
tais entidades nos fizeram acreditar (ou nós é que decidimos aceitar) na
dominação do homem pelo próprio homem. Recorremos a essas entidades porque não
confiamos mais em nós mesmos. Tem sido assim ao longo dos tempos.
Não mais.
Todas essas entidades são
fictícias, intersubjetivas, e só existem no nosso imaginário. Países, marcas,
autoridades. Existem porque acreditamos e confiamos nelas. Mas, no limite,
todas as transações, sejam elas financeiras ou de qualquer outra natureza, são
realizadas entre humanos. Pelo menos por enquanto.
Por um momento imagine você que
houvesse uma forma de trazermos confiança para regular as transações entre os humanos
sem dependermos de um intermediário “confiável”. Um sistema à prova de mentiras
e trapaças. Poderíamos cooperar em grande escala em benefício de uma sociedade
mais justa, entre nós humanos, entre nós e os outros seres e, sobretudo, entre
nós e o planeta em que habitamos.
O nome do que estamos aqui
imaginando é Blockchain. A tecnologia por trás do Bitcoin. Trata-se de uma plataforma
descentralizada para validação e registro de transações. Um grande livro
razão mantido por uma rede de computadores que armazena cópias sincronizadas de
todas as transações validadas. Que pode ser consultado, mas jamais alterado.
A característica fundamental dessa
plataforma é não ser centralizada, ou seja, não ter um dono, um ponto central
de comando, evitando que se tenha também um ponto único de falha.
São os participantes dessa rede
que, de forma colaborativa ou até mesmo competitiva, garantem a autenticidade
das transações que serão registradas. A transferência de propriedade de um
bem, seu voto, sua identidade e a autenticidade das suas criações.
Cada participante da rede dá a
sua contribuição. A soma de todos esses pequenos grandes esforços é o que torna
o modelo especial. Cooperativo em grande escala.
O que nos torna mais adaptáveis é
nossa capacidade de nos conectarmos. E conectados, podemos compartilhar
conhecimento. Bem vindos à era do conhecimento exponencial.
Podemos ter Blockchains públicos,
onde qualquer pessoa anonimamente consegue participar. Podemos ter Blockchain
privados, onde parceiros de negócio de uma determinada rede só podem participar após serem autorizados. Ou até mesmo Blockchains híbridos. Tudo dependerá do
que, enfim, nós acreditarmos.
Aterrissando do mundo dos sonhos
para o mundo real dos negócios, grandes perspectivas se abrem a partir dessa
visão. Desde novas formas de pagamento sem intermediários até o pleno
acompanhamento do ciclo de vida de um produto desde o seu nascimento até o descarte
final. Novas formas disruptivas de negócio baseadas em confiança, como disponibilização
de microcrédito para quem necessita ou a efetiva consolidação do trabalho de
cooperativas. Ou seja, a valorização dos seres humanos em sua essência.
No próximo artigo exploraremos um
pouco mais o que já vem sendo feito com Blockchain na prática, desafios computacionais
a serem superados e especialmente possibilidades reais de uso.
Países são abstrações. São entidades
fictícias.
E países não mudam.
Mas Blockchain tem o poder de
transformar as relações entre as pessoas trazendo confiança sem a necessidade
de intermediários. Isso mesmo, transformar as relações entre as pessoas.
E
pessoas transformadas... pessoas transformadas mudam países. Basta que
elas acreditem nisso.
2 comentários:
Somos humanos, demasiado humanos. Prosperamos como espécie porque aprendemos a contornar a falibilidade individual com o esforço e conhecimento coletivos. Blockchain pode tornar-se importante ferramenta neste processo, atribuindo a um grupo aberto e heterogêneo funções atualmente dadas a indivíduos ou organizações fechadas. Isso desde que o instinto de sobrevivencia desses indivíduos e organizações seja sobrepujado pelo poder do novo.
zóide
Blockchain eh a maior descoberta tecnológica da minha geração. As possibilidades são infinitas, mas acredito que só a próxima geração poderá usar plenamente isso. O que resta eh amadurecer e propagar as informações. Humanos são teimosos e preguiçosos, mas não poderão resistir a Blockchain.
SlymerX
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