segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dia errado

Eles nasceram no dia errado.
E eh como se houvesse dia certo para se nascer.
Gemeos. Gemeos e negros. Negros e pobres.
E eh como se fosse diferente ser negro.
E eh como se fosse errado ser pobre.

Jonathan era calmo. Jonathas nem tanto.
Um era razao. O outro era sentimento.
Um era orgulho. O outro era vaidade.
E um pouco de ressentimento, que afinal de contas ninguem eh de ferro.

Um vivia em outro mundo. E o outro dizia que esse mundo nao presta. E o mundo onde o outro vivia prestava menos ainda.
Unidos pelo destino. Ligados pela aparencia. À sua imagem e semelhanca.
Vidas atadas pelas maos graciosas do destino.
Do pai pouco se soube (apenas que ele pouco se importou). Da mae so se disse que tudo fez, dentro do seu possivel.
Mas o possivel nem sempre nos basta. Amor de mae eh assim, uma coisinha que nao precisa explicar. So as maes sao felizes.

Eles cresceram no lugar errado.
E era como se fosse errado crescer.

Nota do editor: Boa parte da filosofia contemporanea tenta entender se o homem importa.
Ontologia. O ser enquanto ser. Aquilo que eh parte inerente a todo ser humano. E o que eh proprio de cada ser.
Tiremos da amostra aqueles que nao se importam. Deixemos o resto, eu, tu, ele, importamos?
Mudara em alguma coisa o fato de termos existido? Ou seremos simplesmente meros coadjuvantes nesse filme sem roteiro?
Somos fragmentos de um discurso amoroso. Letrinhas que se juntam para formar o texto da historia. Um texto que ninguem le. Eu, vc, Jonathan e Jonathas. Unidos unicamente pelo veiculo que nos conduz. Companheiros de carona neste planeta torto. Nada alem de uma ilusao.

Jonathan era das palavras. Jonathas era dos numeros.
Um desiludido. O outro tambem. Fotografia nua e crua de uma sociedade que nao deu certo. Como eu. E como vc.
O que mais me assusta eh saber que ta tudo errado e nao querer consertar. Reinventar, para usar a palavra da moda.

De amor, um morria e o outro matava. Confesso que ja nao sei bem quem era qual.
Se quem morria era o torto e quem matava era o certo.

Se um era solidao, o outro era amigo.
Se um era silencio, o outro era musica. Se de ambos o caminho era perdido, nao vou responder.
Mas a amargura de um homem se pode ver no olhar.
E nem adianta querer se importar.

Eles acordaram na hora errada.
E era assim como se houvesse hora certa para se acordar. E foi.
Ja nao sei mais separar. O bem e o mal habitam o mesmo ser. E voce so iria entender se tivesse reparado.
Porque no fundo a gente eh assim, meio fraco, meio bobo. Meio gente.
E como eu queria que cada J fosse uma vida...

Se um era perdido. O outro era perdido e meio.
Um queria poder. O outro queria poder ajudar.
Por que voce nao percebe? Por que voce nao foge?
Por que voce nao se encontra? Por que voce nem procura?
Tudo muito mais devagar, por favor. Porque daqui a pouco eh a gente quem passa.

Um bandido viu um, um policia viu o outro. Nao te falei que nao sei mais quem eh quem nessa historia?
3 tiros em um. 3 tiros no outro. Pois eh, o destino faz graca.
Nem precisa sofrer. A vida eh assim.

Eles morreram no dia errado.
E eh como se houvesse dia certo pra morrer.
Hoje nem eh feriado. Nada mudou. O sol se escondeu. A noite caiu. Um cachorro passou. O telefone tocou.
O relogio chorou. E o poeta aqui nao sou eu. Quanto sentimento...
A vida seguiu em frente.
E a gente dormiu bem tranquilo. Pouca coisa aqui importa, voce nao acha? E voce, sera que se importa?



NOTA 1:
Jonathan Swift nasceu em 30 de Novembro de 1667, em Dublin, na Irlanda.
Órfão de pai, com um ano de idade, é levado secretamente por sua ama para a Inglaterra e, após dois anos em
solo inglês, volta para Irlanda em virtude dos problemas políticos que ocorria no país.
Em 1725 começa escrever "Viagens de Gulliver" onde pretendia agredir o mundo (e não diverti-lo).
Em 19 de Outubro de 1745 morreu em Dublin, já completamente surdo e louco. Ele está enterrado
na Catedral de São Patrício. Em sua lápide, o epitáfio em latim, escrito por ele mesmo:
"Aqui jaz o corpo de JONATHAN SWIFT, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá mais dilacerar-lhe o coração. Segue passante, e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade".



NOTA 2:
Jonathas Lopes dos Santos, de 20 anos, foi preso no bairro do Rangel/PB. Ele estava na moto Track, pertencente à vítima quando foi abordado por policiais. Segundo o tenente-coronel Marconi, ele planejava abandonar a moto em uma das ruas da favela do Citex, no bairro do Geisel, para em seguida fugir. Na casa de Jonathas, foram encontrados o revólver
calibre 38 e até mesmo a cápsula da bala usada para matar o estudante do Cefet.
O acusado confessou a participação no crime.

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