Sabe esses dias em que tudo parece meio morto?
Pois é. Olhando para o nada... esperando o maldito vermelho virar verde.
Nem mesmo o pensamento, esse fiel companheiro das minhas noites de insônia, para me fazer companhia.
Nada. Ninguém. Silêncio absoluto lá fora e aqui dentro de mim.
De repente, olho pro lado e não estou mais só.
Bem ali, ao meu lado, olhos fixos em mim.
Não tive tempo de sentir medo. Aquele olhar...
conhecia bem aquele olhar. Era o mesmo que me repreendia do espelho todas as manhãs.
A certeza de estar fazendo a coisa errada e não ter forças para parar.
Reconhecendo o olhar, tudo começou a fazer sentido. Senti frio.
Ou algum outro sentimento qualquer.
- Entao é isso?
- Sim.
- Mas sem aviso... assim... do nada?
- É.
- Que coisa, hein?
- Se eu dissesse que viria, vc me esperaria?
- Claro que não, oras!
- Pois então. Tem de ser assim.
- Vendo por esse lado. É. Vc tem razão.
Melhor que seja assim. Rápido e indolor.
... Mas é que eu tinha tanta coisa prá fazer hj. Terminar o maldito projeto...
- Não vai precisar...
- Cronograma atrasado. Preciso arranjar uma boa desculpa. Nessas horas todo mundo
quer tirar o seu da reta. Sabe como é, com essa onda de cortes.
Semana passada foram 4. Dizem que...
- Ei, meu chapa! Chega. Acabou. Game Over. Percebe?
- Claro. Desculpa. Força do hábito. Puxa, a gente só tem essa certeza na vida.
E na hora H... fica surpreso em saber que essa é a hora H.
- Quer dar uma última olhadinha?
- Acho que quero...
Então eu vi minha vida passar por mim. Não como um filme, mas uma sequência desconexa de fotos.... retratos de quem eu era, de quem eu achava que era... de quem os outros
achavam que eu era...e de quem eu jamais cheguei a ser.
A primeira bicicleta. Uma Caloi verde horrenda. O estacionamento onde eu jogava bola.
O avental do primário. Meu pai na arquibancada. Minha mae na cozinha.
Putz... O quartel. Horas preciosas perdidas naquela guarita.
Minha irmã dentro do carro que eu dei pra ela.
Ei... o povo de Sanca. Aloja. Estranho sentir saudade da comida do bandejão, mas eu senti.
Uma certa blusa default. Pedaços de um quebra-cabeca, contando a minha passagem por
estas bandas.
E essas coisas do passado botam a gente comovido prá caramba.
Mais fotos. O ritmo aumentando. E eu tentando conectar a foto ao fato
como quem junta os pedacinhos de uma carta de amor que nunca enviou.
Lá fora tudo normal. Ei! Pessoas!!! Aqui! Olhem pra mim!
Mais fotos. Algumas que eu nem me lembrava mais. Frases perdidas
Palavras jogadas: NAC. CPOR. FUVEST. SCE. CEFER. ICMSC. Processos Estocásticos.
- Posso pular essa parte?
- Claro. O album é seu.
- Ok. Valeu. Quanto tempo ainda resta?
- Relaxa. O tempo é algo que não tem mais importância prá vc...
Cachoeira. Devia ter ido mais lá, pensei quase me culpando.
E me desculpando.
- Sabe, fiz tanta coisa errada. Se eu pudesse...
Se eu pudesse faria tudo de novo. Só que erraria mais dessa vez.
Saudade. Li uma frase do Mário Prata que dizia:
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue".
Saudade é isso.
- Posso chorar?
- Se vc quiser. Mas não vai adiantar.
- É. Deveria ter chorado mais. E sorrido em dobro também.
Peraí! Quem é essa crianca?
- Seu filho.
- ... Eu não tive filhos!
- Não!!!
- Não!!! (E eu vi a Dona Morte assustada)
- Certeza?
- Bem. Mais ou Menos. Não que eu saiba. Quer dizer.. Sim. Acho que tenho quase certeza
(já trucando).
- Que inferno! Foi mal. Desculpa pelo mau jeito. Cheguei cedo demais. Até a próxima então.
Só tive tempo de pensar:
- Ainda bem que de vez em quando a gente se lembra de que morre.
Quem sabe assim consiga viver um pouquinho mais...
- Opa! Abriu o farol. Acelero... e a vendedora de balas já não me incomoda mais...
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
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