Eutuele, nosvozeles
Tava eu no meu carro curtindo um som maneiro no meu mp3 player:
"- Vai me enterrar na areia?
- Não, não. Vou te atolar!
- To ficando atoladinha, To ficando atoladinha..."
Representação máxima da cultura, ora dita de massa, que rege e norteia a nossa
vã filosofia, enquanto expressão dispéptica do brado retumbante de um povo heróico,
por assim dizer.
Isso tudo, quando, não mais que de repente (e o de repente é algo assim
que vem e pã, já é), olho pro lado e "me" vejo andando na calçada.
Não, caro leitor, não é figura de linguagem. Quando digo que "me" vi
na calçada é porque, de fato, havia eu visto a mim (euzinho, myself, a minha pessoa)
caminhando calmamente pela extremidade lateral do logradouro.
Parei o carro na hora. E esperei que eu passasse por mim. Acompanhando pelo retrovisor,
tive a certeza: era eu. Cara, a paradinha tava sinistra. Sinistra estava a paradinha.
Como é que eu posso estar me vendo?
Digo para você e para mims mesmos. Não sei. Só sei que era eu.
O mesmo eu. O cabelo. Os olhos. O nariz. A boca. A cor bege escura. O joelho zoado.
Eu, como se gêmeo eu fosse.
Aceitei a verdade absoluta de que eu já não mais estava sozinho neste mundo...
pelo menos não na minha mediocridade, já que agora havia um eu bem mais ou menos
a me acompanhar.
Chegando ao trabalho, tive vontade de falar com Deus.
Dois caminhos eu tinha, pensei eu (o eu religioso).
via Vaticano: http://www.vatican.va/phome_po.htm
ou
via Vigília dos 318 Pastores: http://www.arcauniversal.com/318pastores/index2.jsp
(cara, dá uma olhada na forma correta de se calcular o dízimo para os empresários).
Antes que eu me decidisse por qual caminho seguir, eu cheguei.
Sim, o outro eu sentou-se na baia ao lado e foi logo abrindo o notebook.
Confesso que fiquei ainda mais supreso do que da primeira vez que eu vi eu.
As pessoas passavam e davam "bons dias". Um para mim. E outro para eu.
Eu sei que vc já tá ficando entediado com essa confusão, mas vc precisava ouvir
eu falando ao telefone:
- Falar de mim é fácil, difícil é ser eu.
Concordei com ele. Ainda mais sabendo que eu era ele. Ops... ele era eu?
Tem momentos na vida em que tudo o que você mais deseja é ser você mesmo.
Aquele era um desses momentos. Nem mesmo a possibilidade de que aquele eu
assumisse o trabalho e que eu pudesse fugir para alguma praia distante
me convenceu. (convencEU?). O salário que eu ganho não daria para dividir com outro eu.
Filosofias à parte, só havia uma coisa naquele eu que me fazia ter certeza de
que aquele não era o verdadeiro eu. Faltava a ele uma alma. Faltava a ele uma
alegria de viver. Um sorriso gostoso. Uma amizade sincera. Um gesto de carinho.
Uma tranquilidade no olhar.
Faltava o gosto pela vida. E a lembrança dos desgostos dessa vida.
Faltava a ele um amor, uma paixão, um sonho que fosse, uma pontinha de esperança.
A certeza de que o amanhã não é outro dia. Faltava o eu menino. O eu poeta.
O eu profeta. O eu. O verdadeiro eu. A essência de todo e qualquer ser humano.
Aquilo que alguns chamam de dEUs. Outros nem chamam, porque não é preciso chamar.
Basta abrir os olhos. E pensar é estar doente dos olhos.
Parece que tudo nessa vida já foi dito. Que a vida é curta demais para ser pequena.
Que o amor que eu te dei não é coisa qualquer. Que amar se aprende amando.
Que o dinheiro não traz felicidade.
Que só as mães são felizes. Que o teu pai é o teu verdadeiro herói.
Que o Brasil é o país do futuro. Que o melhor conselho do mundo é usar protetor solar.
Que tem coisas que nem a poesia consegue explicar.
E que o meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim.
Eu não sei você, mas eu estou até agora me perguntando quando foi que
eu deixei de ser eu... para ser aquele outro cara.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
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