terça-feira, 19 de agosto de 2008

o velhinho vendedor de balas

No meu caminho há um velhinho que vende balas.
Fazer o quê? No caminho de outros há uma pedra.
No meu, só há um velhinho que vende balas.

De uns tempos prá cá comecei a perceber que ele sempre está lá.
Aconteça o que acontecer, ele sempre está lá.
Impassível. Imperfeito. Inerte. Imortal.

Quando eu passo emburrado, metido em meus falsos dilemas, ele está lá.
O velhinho que vende balas.
Quando eu passo esquecido, perdido em meus falsos delírios, o velhinho está lá.
Ele, que vende balas.

Sempre que eu paro (e eu sempre paro) ele me oferece uma bala.
Isso, por si só, já seria um baita motivo para eu me incomodar.
Mas o que me aporrinha mesmo é o olhar dele. Não há vida. Não há nada.
Não há ódio, nem angústia, nem dor.
Não há sofrimento, nem alegria, nem medo, nem nada.

Quando eu me recuso a comprar uma bala (e eu sempre me recuso) ele apenas
me olha. E sempre por dois segundos. Cara, isso me incomoda. E convenhamos,
é um bom motivo para me incomodar.
Aquele olhar vazio. É como olhar o chão do mar. E o mar hoje não tem fim.

Outro dia eu passei contente (e no passado eu sempre estou contente) e resolvi
comprar uma bala. Não porque eu goste dele ou de bala.
Mas é que eu queria ver um olhar. Outro olhar. Dito e feito.
Comprei a balinha. E assim foi. Dois segundos do mesmo olhar do velhinho
que vende balas. Ah... que agonia! O velho olhar. Ele não agradece.
Ele não se altera. Ele olha como quem não está lá.

Hoje eu passei "eu mesmo" (e eu nem sempre sou eu mesmo).
E para minha surpresa, hoje ele não estava lá.
O velhinho que vende balas não estava lá.
Não sei o que isso significa na sua vida, mas prá mim foi um mega acontecimento.
Simplesmente porque só hoje eu percebi que o olhar do velhinho
que vende balas é um espelho.
É um passaporte prá dentro de mim.

E se a gente inventasse que hoje é domingo?
E se a gente tomasse sorvete de chocolate?
E se a gente jogasse caixote?
E se a gente empinasse uma pipa?
E se a gente criasse uma banda?
E se a gente fizesse uma guerra de mamomas?
E se a gente lavasse o quintal com mangueira?
E se a gente fosse ao cinema?
E se a gente corresse na praia?
E se a gente desse o primeiro beijo?
E se a gente pulasse o muro da escola?
E se a gente bebesse uma pinga?
E se a gente se acreditasse? E se a gente se arrependesse?
E se a gente se olhasse no espelho?
Se a gente olhasse no espelho e visse o velhinho refletido?
E se a gente não visse?

Não sei. Só sei que hoje ele não estava lá. Lá no meu caminho.

(Me diz uma coisa:
quando Deus criou a vida, Ele já tinha criado a morte?
ou foi pura sorte?)

Não sei. Só sei que hoje ele também não estava lá. Lá no meu caminho.


PS: ah se o velhinho vendesse sonhos ao invés de balas...

2 comentários:

Unknown disse...

Olha, entendo que tecnicamente só há morte se há vida. Portanto se Deus criou a vida é plausível supor que tenha criado a morte, mas não antes. Não foi sorte. E como diria aquele pedreiro que morreu num sábado atrapalhando o trânsito: para morrer basta estar vivo.

Thiago Moreira disse...

Ontem eu vi o velhinho vendedor de balas.
Sim, ele estava lá, impassivel diante de nossa apatia.
E eu me senti sozinho dentro do meu carro.
Ele estava lá, atrapalhando o transito para nos avisar que olhassemos um pouco para os lados.
E, por um momento, o transito já não mais importava para aquele farol vermelho.